Vida

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Com desejos de que nosso coração bata em 2010 sempre de felicidade e que a vida seja sempre a prioridade.

2010...

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Arruda e seus cavalos

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Nunca gostei de ofender os animais comparando-os com alguns tipos de pessoas. Os cavalos, por exemplo, são seres vivos belíssimos! Além de elegantes, deixaram-se domesticar ainda na pré-história, cooperando imensamente para o processo de desenvolvimento da agricultura, que veio a ser um dos marcos mais significativos para as tranformações culturais da humanidade. Infelizmente eles não possuem o dom do livre arbítrio, não sei porque. Penso eu, que se assim fosse, não se deixariam montar por outros seres vivos, que apesar de possuirem o dom do lívre arbítrio, não possuem o dom do discernimento. Ou quem sabe esses seres que montam, poderiam talvez aproximarem-se mais dos cavalos que passeiam nas minhas memórias de menina, quando os via pela janela passarem em disparada pela rua, na esquina da minha casa, eu morria de medo! Diziam-me que eles estavam disparados, ou seja, fora de controle.
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Não. Estou errada em meu raciocínio. Esses cavalos do Arruda, se aproximam mesmo dos primeiros cavalos: domesticados (institucionalizados), treinados, prontos para avançar.
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Não somos nós, povo, os BANDIDOS!

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Policiais cercando espaço da manifestação em frente à residência oficial do governador do DF no dia 03 de dezembro. Cercaram e bateram em professores, mas o bandido mesmo estava lá dentro!

Lugar e hora das crianças?

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Crianças conduzindo crianças. Essa foi minha impressão ao ver tantas crianças no show do Rappa neste domingo no Guará. Mães muito jovens, passavam por mim em meio à fumaça de cigarro, de maconha, cheiro de álcool e muitas pessoas, sem falar no som altíssimo! Passavam em meio a todo o tumulto segurando de um lado a criança e do outro o celular...

Definitivamente lugar de criança à noite é no aconchego da sua casa, escutando estórias, brincando, ouvindo uma música suave, para no máximo 10h ir dormir... para o hormônio do crescimento agir, para que cresça saudável, atenta e tranquila.

Minha intenção com essas palavras não é condenar às mães e pais que levam seus filhos para a noite e colocam seus pequenos corpos, mentes e espíritos em perigo, mas sim defender o direito dessas pessoinhas de crescerem saudáveis. Certamente o comportamento de muitos de nossos alunos se justifica nessa prática, nesse comportamento de pais e mães incosequentes. Quando chegam na quinta série, recebemos meninas e meninos que não conseguem se concentrar na leitura, desenvolver uma sequência lógica de idéias com continuidade, memorizar operações básicas de matemática... são muitas vezes inseguras, agitadas e agressivas. Sofrem muito por estarem nessas condições e a partir daí passam a sofrer mais ainda as consequências de ações desferidas sobre elas, dando continuidade a um ciclo de sofrimentos, com humilhações em sala, gritos dos pais, direções e professores; apanham, são lhes depositadas valores como irresponsáveis, menos inteligentes e tantos outros, sem que tenham a menor culpa pela condição que se encontram. Nesse quadro chega a Ritalina, como salvação, mas que não passa de mais um aprisionamento e violência contra essas pessoinhas. Reprovações, envolvimento com drogas e suas consequências torna-se mais fácil nesse contexto.

Este é apenas um desabafo reflexivo... pois são tantos os abandonos...

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Sombrinha irisada

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Com a sombrinha carrego a sombra que me cobre,
quando chego largo-a aberta na entrada,
para que escorram os raios do Sol...

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Mesa posta para Bachelard

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No meio da tarde resolvo ler filosofia.
O Sol esquenta meu couro,
o ônibus enfumaça minha pele,
o corrupto continua roubando
e eu penso nas contas para pagar.
Os livros não são poucos
e eu ainda não preparo
chá para os fantasmas.
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Memória

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A gente pára e olha para o passado, enxerga as coisas, todas postas sobre a mesa, todas tortas, deixadas lá. Pegamos com as mãos ainda não trêmulas, lembrança por lembrança, espia cada uma, analisa, observa, devolve à mesa, com a quase estranheza de quando a viveu experiência. Naquele tempo doeu, rasgou, deliciou, chorou, sorveu. Agora lembranças pasteis, ex cor africanidade, ex brilhantismo de sol. São como véus de transparência opaca, no balanço câmara lenta do vento da janela aberta. A poeira lá fora ainda passeia pelo ar. Tudo parado, congelado, nessa arrumação de dança de tempo. As lembranças expostas, colocadas umas sobre as outras, são como corpos de guerra deixados no esquecimento. Batalha final sem fim.
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Zé Monjolim

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Quando criança, havia na minha cidade um homem que chamavam de Zé Monjolim. Não sei sobre a origem desse chamamento e sempre achei curioso. Até hoje na presença desse nome passa-me a imagem de um monjolo pela cabeça e junto vem à mente mais essa cena curiosa que compõe o cenário de crônicas da minha infância.

Eu ficava na janela observando, dias quentes, início das tardes. O vermelho da terra com a luz do sol misturava-se ao sorriso e dentes daqueles meninos. Eram muitos que se juntavam ao redor do Zé Monjolim: vestido de terno cinza, bem apertado, pele morena cor de cabaça, cabelos cortados baixo, todo limpo e empertigado. Trazia sempre no bolso um vidro âmbar com álcool. As crianças ao seu redor riam, riam muito, pois sempre que alguém tocava no seu braço ou qualquer outra parte do seu corpo, ele se limpava com o álcool. Minha mãe nos dizia que ele sentia nojo e que as crianças não deviam fazer aquilo. Mas aqueles meninos eram danados! Quanto mais ele se limpava e brigava, mais as crianças o tocavam... Parados na esquina da minha casa faziam essa arruaça diurna, depois iam embora. Na minha cabeça ficavam perguntas, curiosidades sobre porque ele fazia aquilo.

Desde essa época que eu passei a acreditar que o álcool limpava tudo. Já minha mãe dizia que o bom mesmo era água e sabão, pois esses só não limpavam a língua de fofoqueiros! Não imaginava que um dia iria me sentir como o Zé Monjolim. Tendo que limpar minhas mãos com álcool e ter a preocupação constante de lavá-las com a água e sabão, que continuam não limpando apenas as línguas de fofoqueiros. Que nos dias de hoje, nessa composição urbana, traduzem-se nesse jornalismo que assistimos na tv.

Porém, noutro dia fiquei sabendo que álcool não mata vírus, então me perguntei do porque estarem nos dizendo para passar esse negócio nas mãos.... ah, mas é melhor a essa altura não perguntar muito mesmo não, acabamos por descobrir coisas terríveis com toda essa curiosidade! Água e sabão parece que só leva embora. Mas matar mesmo, também não mata não. Eu acho também que o Zé Monjolim não sabia disso. Mas eu também não sei se ele preocupava-se era com vírus, penso que ele limpava outras coisas do seu corpo. Assim como eu penso que devíamos nos preocupar em matar outras doenças da sociedade, as que têm a ver com poder, com dinheiro a qualquer custo, quem sabe assim não precisaríamos nos preocupar em comprar tanto álcool gel, gel anti-séptico e o diabo a quatro!

O Zé Monjolim talvez não fosse gostar dessa forma de assepsia, fica um negócio meio grudento nas mãos, ainda mais se misturado com poeira, como das mãos dos meus alunos (risos).

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Dias de Frida

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Nesses dias sinto-me como Frida, apesar das dores, há jardim dentro de mim.
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Dias de olhares verdes, o coração sangrando em vermelho e de idéias multicores na cabeça.

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Os deputados distritais na sua maioria continuam insistindo na idéia de passarem por cima das leis, da constituição, da natureza, da vida. Em mim fica uma dúvida que não se cala: qual o interesse dessas pessoas ao desejar promover tanta destruição daquilo que é bandeira mundial, o meio ambiente, já que dele depende nossas vidas... ?

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Apropriação por afinidade


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Minha dor é perceber

"Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais..."

Minha mãe quase não tem manias. Já a vovó Flora tem regras para tudo. Só que eu sei, nos últimos 30 anos ela toma banho às 17h. Desliga a tv depois do almoço para "esfriar", para ver novamente à noite.
Ao mesmo tempo ela é vanguarda. Quando lançaram o vídeo cassete mesmo sem saber o que era direito, ela comprou um. Foi assim com o cd, dvd, frezzer, tv de 29 polegadas e a mais recente de LCD. Assim que a Net chegou ao Guará ela assinou. Dessas coisas novas (para maiores de 40) a única coisa que ela não se interessou em usar foi o computador. Faz sentido porque ela foi precariamente alfabetizada no início dos anos 20. Mas quando levo fotos de família ela corre para ver no monitor do micro.
Vovó Flora tem uma vasilha só para esquentar água, uma só para cozinhar o feijão. Não pode misturar o pano de passar no chão da cozinha com o que é usado no corpo da casa etc. Evidente que eu achava essas manias típicas de velho. E que jamais faria isso.
Semana passada me peguei reproduzindo as manias da vovó. Comprei uma Havaianas para usar em casa, idêntica a que uso na rua. Uma chaleira para aquecer água, um copo de alumínio com asa (tinha que ser com asa para remeter à minha infância) para tomar água do meu filtro de barro.Com certeza farei mais coisas do gênero.

Rabelo
13 maio 09


André Rabelo é professor de história e fotógrafo que registra seu cotidiano de forma leve e que flui como uma boa história de ouvir. Quando fala também é assim.

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Indignação

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Bem. Não tem jeito. Eu preciso pelo menos escrever. Caso contrário, explodo! Primeiro eu irei alongar os meus braços, aprumar a coluna e respirar fundo. (pausa). Pronto. Eu fiz um vídeo, como podem ver logo abaixo. Coisa simples. Meu jardim com flores em dias de chuva ao ritmo de Carmina Burana. Sem nenhuma pretensão comercial, apenas um respirar poético em imagens, para expressar uma idéia. Um exercício de edição, de composição com imagens em movimento. Enfim, coisa simples. Desejei compartilhar com os amigos e amigas aqui no blog. Para colocá-lo aqui foi preciso, de acordo com as normas do blogger, publicá-lo na internet antes, fiz isso no Google e no you tube. Na sexta feira eu recebi uma notificação em meu emeio dizendo o seguinte: “Notificamos a remoção ou desativação do acesso ao material a seguir em decorrência de uma notificação de terceiros da parte de Schott Music GmbH & Co. KG informando que este material é infrator: Carl Orff em meu jardim: http://www.youtube.com/watch?v=O1A04HWkNj4

Ta. Tudo bem. Não pedi autorização para ninguém para usar aquela música. Por outro lado pergunto: estou prejudicando alguém com esse vídeo? Estou ganhando dinheiro com ele? Não. Pelo contrário, estou divulgando uma música que acho bacana. No meu entender, há uma atitude educativa nisso.

Sabe, eu fico chateada com essas coisas. Faz-me recordar de um caso, de um senhor que foi preso anos atrás porque retirava cascas de uma árvore que tem propriedades medicinais, disseram que ele havia cometido crime ambiental. Ta bom, isso é crime. Mas, tomar de assalto terras de um povo, com mananciais de água que é um bem não apenas de Brasília, mas do Brasil, quiçá de toda a humanidade, pode? Trocar essas terras por voto, pode? Entregá-las nas mãos de empreiteiros para inchaço de uma cidade que já sufoca, pode? Tomar de assalto um parque ecológico, como o do Guará, minha cidade, parcelar esse parque e sabemos que futuramente o destino seria entregá-lo nas mãos de mais empreiteiros, (bato na madeira três vezes) para a construção desenfreada de prédios, prédios e mais prédios, isso pode? Ta bom. Outra coisa que pode também é retirar 10 milhões dos cofres públicos, do nosso dinheirinho suado, para fazer uma campanha, op´s, quer dizer, festa sem ao menos nos perguntar que tipo de festa, que artista queremos. Pegar esse dinheiro e entregar nas mãos de gente da indústria do entretenimento, pois artistas não são, gente que já tem muita grana e deixar de lado as manifestações locais! Isso também pode. Ah, mais uma coisa que pode: aplicar 38 milhões em publicidade enquanto que no mesmo período aplica-se 18 milhões na educação, na saúde e na segurança juntos, como já disse, isso também pode. Aumentar o salário dos professores, não pode. Gastar 38 milhões em publicidade, pode. 10 milhões com gente da espécie da Xuxa, pode. Comparo isso a você deixar de se alimentar para comprar uma roupa de festa, cara e descartável, sem valor de tempo...

Bem, você poderá dizer que não foi o Arruda que mandou retirar o meu vídeo do ar. Mas foi um tipo de gente que tem as mesmas raízes, que compartilha da mesma lógica: a do mercado. Talvez se eu estivesse baixando músicas da internet, copiando cd’s e comercializando por aí, desde que passasse um pouco da grana para alguma autoridade, não tivesse sido notificada. Pois do mesmo modo não fizeram e ainda fazem os grileiros com as terras do povo de Brasília?

Os dias não tem sido fáceis. Muitas coisas erradas e indignantes acontecem ao mesmo tempo. Os políticos mentem, a mídia repassa a mentira e manipula a realidade. Estamos todos sendo muito prejudicados. Tudo isso em função da grana. Do poder. Da vaidade. Fico pensando: o governo e os deputados (na sua maioria) conseguem deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente? A consciência dessa gente não dói? Não tem eles nenhum tipo de remorso pelo mal que causam a tanta gente? Por acabar com a natureza, por deixar pessoas morrendo nos hospitais, tudo isso em função de poder, de dinheiro? Para que, me digam, essa gente quer mais dinheiro do que já possuem? Vão morrer por volta de 80 anos, como todo mundo. Seus herdeiros terão dinheiro para fazer como eles, voar em seus aviões e helicópteros por sobre o caos do trânsito e nossas cabeças, beberão água limpa e em abundância em suas ilhas paradisíacas livre de poluição e secura, por quanto tempo? Por quantas gerações? Se tudo é um sistema. Se que o que está sendo causado aqui, vai alcançar todo o planeta em algum momento. Como o bater das asas de uma borboleta...

Desculpa, mas isso é foda.
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Em dias de greve, a poesia alimenta...

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TECENDO A MANHÃ
(João Cabral de Melo Neto)

Um galo sozinho não tece uma manhã
Ele precisará sempre de outros galos
de um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro. E de outros galos.
Que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma teia tênue
se vá tecendo entre todos os galos

E se encorpando em tela entre todos
Se erguendo tenda onde entrem todos
Se entretendendo para todos no toldo
A manhã que plana livre de armação
A manhã toldo de um tecido tão aéreo
Que tecido se eleva por si: luz balão
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Desnecessárias necessidades

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Meu desejo é o de materializar aqui em palavras e imagens, como por encanto, magia, os pensamentos que penso enquanto caminho... enquanto sigo os meus dias... já que o tempo tem sido tão pouco para tantos desejos, para tantas necessidades, reais e inventadas. Ainda hei de parar de inventar necessidades, de necessitar das necessidades e serei simples e nua. Nesse dia serei feliz e vou voar...

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Poeminha infantil

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Uma menina vermelha
conheceu um menino azul.
Beijaram e se amaram...
nasceu uma menina lilás.
Um menino amarelo
conheceu um menino azul.
Beijaram e se amaram...
nasceu uma verde esperança
de poderem viver felizes para sempre...

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Carl Orff em meu jardim

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Um jardim entre grades, a natureza e seu movimento, chuva e vento em harmonia com Carmina Burana.



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Um pouco sobre Carl Orff e Carmina Burana:
http://www.das.ufsc.br/~sumar/perfumaria/Carmina_Burana/carmina_burana.htm

"Criançamento"

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Como é linda a voz de uma criança. É uma música tão gostosa de ouvir. Aliás, as coisas nascidas de logo são tão belas: o broto de uma planta, um botão de rosas, a mãozinha macia de um bebê, a unhinha do seu dedo mindinho. Lindo tudo. Passo sempre por uma rua onde há uma casa que criam algumas galinhas, na verdade é uma espécie de galinheiro/gaiola, já que o espaço é pequeno, bem na frente. Imagino que seus moradores sejam algum tipo de saudosistas do interior de Goiás, que teimam em manter um vínculo com a pré-modernidade, nessa ex-satélite da moderna Brasília. Tempos atrás passava por ela e naqueles dias haviam nascido muitos pintinhos. Não os via, mas escutava os piados múltiplos e seguidos, aquele barulhinho agitado acompanhou-me por muitos metros... parecia uma musiquinha, um chorinho acelerado, tão fininho, baixinho, suavezinho... Senti saudades, mais um tipo de saudade da minha infância, quando convivia com esses sons que vibravam junto com o ar ensolarado das tardes interioranas. Aqueles piadinhos, na hora, fez-me lembrar as vozes e chorinhos dos bebês, já que bebês eles também são. Não sei o que irão fazer com aqueles animaizinhos, provavelmente não experimentarão o cantar ou o cacarejar dessa ave adulta, assim como nem todas as vozezinhas de tantas crianças, não chegarão a pronunciar palavras inteiras, com um som grave, pois serão retiradas da vida antes do tempo. Escutando uma musiquinha assim de uma criança conversando noutro dia num ônibus bem cheio, lembrei-me desses pintinhos, que haviam me feito lembrar de bebês, que me fazem pensar em música, em botões de rosa, no verso de um poeminha que escrevi há anos atrás sobre o barulhinho das gotas de água nas folhas que se pareciam com rock de grilo, que me faz pensar na chuva, e essa nos desabrigados das enchentes e essa quantidade de gente solta me faz lembrar das guerras e das imagens da TV de crianças mortas nos atuais conflitos...(pausa)...

A voz de crianças, além de se pareceram com os botões de flor e os piadinhos finos dos pintinhos, se parecem também com os diamantes nas jóias e as estrelas no céu.

Partilhando...

Recebi esse texto por emeio e gostei. Como não havia informações sobre sua autoria, resolvi pesquisar e encontrei o "Comunicação Militante", então criei esse link para divulgar, pois é uma reflexão importante e muito redonda.


Comunicação Militante: Jabor, ventríloquo de suas próprias tripas

Um conselho

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Leia um poema todos os dias. Eles são uma espécie de pílulas para a vida eterna...
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Tentativa poética

Que lugar é esse que eu não chego?
Eu necessito de espaço que me permita.
As palavras
alargam-se na extensão da minha alma doída,
mas só eu as sinto em mim.
Na impossibilidade de
conduzi-las ao exterior,

para então ser pescada por
alguém desavisado de que essas
palavras são canto de vento.
É, canto.

Anguloso mesmo.


Pés de Modotti

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"O que vemos quando olhamos essa cópia fotográfica é algo inequívoco: os pés com sandálias de um camponês mexicano, de roupa branca, própria para o trabalho, unhas quebradas e pele impregnada de poeira, enquanto as mãos estão cruzadas sobre os joelhos e seguram-se mutuamente, envelhecidas e com veias saltadas. Acima dos joelhos, a linha superior da moldura corta o resto do corpo do homem: o único elemento adicional na foto é um relance do pé e da perna de outro homem, muito pouco visíveis no lado esquerdo, impedindo que a composição se torne confortavelmente simétrica demais. Acho essa imagem inexplicavelmente tocante."

Pés - parte 1

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Essa foto foi feita por mim no mês de outubro do ano passado. Quando cheguei à parada para esperar o ônibus por volta das 13h, havia um rapaz sentado meio de lado com um dos pés sobre o banco e todas as outras pessoas estavam em pé. Pedi licença para me sentar e ele com um olhar perdido, mas com olhos muito abertos, afastou-se um pouco. Puxei assunto e notei que algumas pessoas passaram a observar o diálogo. Ele não dava respostas claras e alguns sons eram emitidos monossilabicamente. Recordo de uma das respostas: “Não tenho sonho”. Incisiva perguntei novamente: “Não tem nenhum sonho, um desejo?” “Não”. Tirei da bolsa a câmera fotográfica, movimento este acompanhado por seus olhos curiosos e perguntei a ele se o podia fotografar. Balançou a cabeça afirmativamente e um breve sorriso apontou dos seus lábios e seu olhar brilhou... Comecei fotografando seus pés sobre o banco e fiz outras imagens registrando-o como em retratos. Ele gostava e não negava poses. Paramos e ele, que havia se colocado em pé para as fotos, voltou ao banco. Nesse momento chegou um outro rapaz, sentando entre nós, pôs-se a beber água. Nosso personagem pediu um pouco da água, no que este então sugeriu que conseguisse um copo. Ele foi até um quiosque ao lado e não voltou. Ficamos conversando a seu respeito com a participação dos demais que se encontravam em pé. Curiosos passamos a procurá-lo com os olhos, no que descobrimos aliviados que ele estava sentado sob uma árvore próxima e havia conseguido mais que um copo descartável, mas um marmitex e matava sua fome, talvez esquecido de que alguém levava dalí sua imagem. Hoje, quando olho suas fotos, vem ao meu pensamento a pergunta: por onde pisam esses pés sedentos de rumo e sentido...? Ou talvez o que ele sabe fazer é voar, pairando alto sobre as nossas preocupações pequeno-burguesas. Ou não...

Colheita

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É tempo de goiaba. Aqui há um pé delas que cresceu entre um muro vizinho e nossa casa. O espaço é pequeno, muito diverso daqueles espaços para pés-de-goiabas da minha infância. Mas ele cresce rumo ao céu, ao sol e frutifica que é uma beleza e gostosura! Minha mãe colhia couves no jardim, junto às rosas elas cresciam com suas largas folhas e poderiam alimentar muita gente. Ofertar o ferro de Marte. Nessas horas penso nos latifúndios e naqueles que passam fome...

























"De noite o silêncio estica os lírios"

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Manoel de Barros é um dos poetas mais belos que já li. Quando leio seus poemas, tenho a certeza de que ele já entrou dentro de uma folha, que conhece a estrutura das pétalas das flores por terem-nas visitado nas suas entranhas. Penso também que em criança já brincou com os calangos de pique-pega, pique-esconde...

Significâncias...

Quando manifestou em mim um suave desejo de criar um blog, passaram pelos meus pensamentos algumas palavras, alguns possíveis nomes para o evento. Nomes são coisas muito complicadas para quem possui uma mente funcionada pela visualidade. Sou daquele tipo de gente, que ao encontrar com uma pessoa que há muito não vê, recorda a cara mas o nome, nem pensar! Mas eu gosto das palavras. Pra mim elas têm gosto, cheiro e cutucam meus sentidos. Como a imagem. Lendo Mário Quintana encontramos a pérola: "Para que nomes? Era azul e voava..." Há verso mais belo e útil que esse para uma pessoa como eu? Nelson Rodrigues, no seu texto "A valsa número 6", faz os nomes subirem pelas pernas da personagem e quando leio e vi sua interpretação, imaginei formigas lava-pés subindo pelo seu corpo como tanques de guerra numa batalha interminável! Como gosto daquele texto, por causa dessa passagem... como conseguem esses poetas/escritores falarem tanto da gente assim...? Pois é assim mesmo que me sinto, nesse bombardeio histórico de palavras, desde a criação da escrita, dividindo o tempo, criando marcos entre aquilo que é ou não é história! E o meu medo quando desse assunto em sala de aula, que os alunos pensem que não havia vida antes da escrita, já que não teria história! Tudo bem, meus colegas me tranquilizam, dizendo que os autores estão revendo essa questão ou que há contradições a esse respeito, mas mesmo assim mete medo! Então, voltando ao título do blog, resolvi colocar esse lá em cima: significâncias... porque pra mim é importante o significado das coisas ou melhor, é importante fazer com que a nossa vida tenha significado. Um significado verdadeiro, perceptivo, com cheiro, gosto, tato! Essas coisas que esquentam o interior da gente e altera um pouquinho nossa respiração. Que faz brilhar os olhos. Que planta saudades dentro da gente, saudade que faz contar histórias da nossa vida. A vida é a coisa mais importante. Ela precisa ser cuidada com responsabilidade. Coisa essa que não acontece. Ela transformou-se historicamente em produto para barganhas em nome do poder ou poderes. E a luta pela vida bem vivida só pode ocorrer se houver significado. Se houver sentido em viver. Pelo amor a alguém, por uma causa, pelos prazeres do corpo, pelo desejo de desvendar os segredos do universo, pelo saber, pelo riso, alma, corpo, mente...sei lá... pra isso é preciso liberdade... alimento... casa... proteção... sol... água... ar... beleza... flores... pensamento... opinião... vontade... busca... arte... ciência... tecnologia.....................só que para todos! Todos...