Apropriação por afinidade


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Minha dor é perceber

"Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais..."

Minha mãe quase não tem manias. Já a vovó Flora tem regras para tudo. Só que eu sei, nos últimos 30 anos ela toma banho às 17h. Desliga a tv depois do almoço para "esfriar", para ver novamente à noite.
Ao mesmo tempo ela é vanguarda. Quando lançaram o vídeo cassete mesmo sem saber o que era direito, ela comprou um. Foi assim com o cd, dvd, frezzer, tv de 29 polegadas e a mais recente de LCD. Assim que a Net chegou ao Guará ela assinou. Dessas coisas novas (para maiores de 40) a única coisa que ela não se interessou em usar foi o computador. Faz sentido porque ela foi precariamente alfabetizada no início dos anos 20. Mas quando levo fotos de família ela corre para ver no monitor do micro.
Vovó Flora tem uma vasilha só para esquentar água, uma só para cozinhar o feijão. Não pode misturar o pano de passar no chão da cozinha com o que é usado no corpo da casa etc. Evidente que eu achava essas manias típicas de velho. E que jamais faria isso.
Semana passada me peguei reproduzindo as manias da vovó. Comprei uma Havaianas para usar em casa, idêntica a que uso na rua. Uma chaleira para aquecer água, um copo de alumínio com asa (tinha que ser com asa para remeter à minha infância) para tomar água do meu filtro de barro.Com certeza farei mais coisas do gênero.

Rabelo
13 maio 09


André Rabelo é professor de história e fotógrafo que registra seu cotidiano de forma leve e que flui como uma boa história de ouvir. Quando fala também é assim.

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